De Boca do Mamoré à Emancipação: A verdadeira história da fundação e da bravura do povo de Nova Mamoré
Para compreender a força e a resiliência do povo de Nova Mamoré, é preciso voltar no tempo. A cidade, que hoje se destaca pelo pujante agronegócio e pelo desenvolvimento na fronteira rondoniense, foi forjada pela bravura de seringueiros, ferroviários e colonos que desbravaram a densa floresta amazônica. Resgatar essa memória, de forma fiel aos fatos, é um ato de respeito à identidade do Vale do Mamoré.
O Ciclo da Borracha e os Trilhos da Madeira-Mamoré
As raízes da ocupação humana não-indígena na região estão intrinsecamente ligadas ao primeiro ciclo da borracha, no final do século XIX e início do século XX. O território que hoje abriga Nova Mamoré testemunhou o suor dos seringueiros, muitos vindos da região Nordeste, que se embrenharam nas matas para extrair o látex.
O verdadeiro divisor de águas, contudo, foi a construção da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). A ferrovia não apenas garantiu a posse da fronteira para o Brasil, mas serviu como o grande corredor de escoamento da borracha e de castanha. Nas margens desses trilhos, pequenos acampamentos e vilarejos começaram a se formar, delineando o que viria a ser o município..
De Boca a Vila Nova: Os primeiros administradores
O local nem sempre teve o nome que conhecemos. Ao longo das décadas, a localidade foi chamada sucessivamente de “Boca”, depois “Vila”, “Vila Nova” e “Vila Nova do Mamoré”. Inicialmente, a região era apenas um distrito pertencente ao município de Guajará-Mirim.
A história registra que o primeiro administrador de Vila Nova foi João Clímaco. Ele era filho de Sebastião João Clímaco, um dos pioneiros da região e proprietário de imensos seringais. João Clímaco exercia na época também o cargo de subdelegado de polícia. Durante anos, Vila Nova foi administrada por pioneiros nomeados, até que, na gestão do então prefeito de Guajará-Mirim, Salomão Silva, ocorreu a primeira eleição direta para administrador do distrito, vencida por José Brasileiro Uchôa.
O Projeto Sidney Girão e o fim da ferrovia
Com a desativação oficial da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré em 1966 e a posterior abertura da rodovia BR-425, a dinâmica da região mudou drasticamente. Foi no início da década de 1970 que a região vivenciou uma nova e decisiva onda migratória, impulsionada pelo Projeto Integrado de Colonização (PIC) Sidney Girão.
O governo federal, visando povoar e desenvolver a Amazônia, atraiu famílias do Sul, Sudeste e outras partes do Brasil. Essas famílias receberam lotes de terra (nas famosas “linhas”) e trouxeram consigo a cultura da agricultura e da pecuária. A mistura entre os antigos ribeirinhos e seringueiros locais com esses novos colonos formou a base cultural e econômica que sustenta Nova Mamoré até os dias de hoje. O distrito cresceu rapidamente, impulsionado também pela corrida do ouro no Rio Madeira na década de 1980.
A luta pela Emancipação Política
Com o crescimento populacional e econômico, o status de distrito de Guajará-Mirim já não comportava as necessidades de Vila Nova. O anseio pela independência ganhou força. Após uma primeira tentativa frustrada na Assembleia Legislativa, um novo Projeto de Lei, encabeçado pelo então Deputado Estadual Rigomero da Costa Agra, foi aprovado.
O momento histórico da consagração popular ocorreu em 14 de maio de 1988, quando um plebiscito confirmou a vontade esmagadora da população pela emancipação. O projeto foi sancionado pelo Governador Jerônimo Garcia de Santana por meio da Lei nº 207, de 6 de julho de 1988. Nascia oficialmente o município. No final daquele ano, José Brasileiro Uchôa foi eleito o primeiro prefeito da cidade.
Vale ressaltar um detalhe histórico importante: o município foi emancipado sob o nome de Vila Nova do Mamoré. Foi apenas em 17 de dezembro de 1993, através da Lei Estadual nº 531, que o nome foi definitivamente alterado para o atual Nova Mamoré.
A cidade que hoje prospera na fronteira carrega em seu solo o sangue e o trabalho de gerações de brasileiros que, contra todas as adversidades, construíram um dos municípios mais importantes de Rondônia.